Vitrine Ocular [1]

Ela,uma jovem mulher destoante,porém não tanto quanto queria,onde tudo que precisa está nela mesma,ali dentro,no mais inantigível ponto "culminante e obsoleto",embora não saiba o que seja culminante e obsoleto e nem saiba se as palavras combinam e se pergunta porque as palavras precisam combinar para ela expressar o que sente,e se pergunta porque precisa expressar o que sente e decide parar de pensar sobre esse novelo sem fim de indagações que ela trata como um arquivo esquecido no seu cérebro, o grande armário sem fim.
Pensando como deveria fazer para transformar um pedaço daquele novelo sem fim de indagações em uma manifestação sutil e arrebatadora [sim agora estas palavras combinam e ela nem precisa expressar o que sente] com a ajuda apenas de um lápis e um caderno velho de paginas meio amareladas e rabiscos nas pontas dobradas o que indica que ela já o tinha usado em várias outras noites frias e ventosas como essa,em que ela caminha perdida em seus desvarios enrolada num cobertor xadrez bordô,preto e cinza,que arrasta a ponta na calçada molhada pela chuva da tarde,tocando os fiapos das pontas em seus pés gélidos pelo frio de mais ou menos 16 graus,quase 15 até que Ela pára num banco de praça umido.Senta,abre o Buarque que não conseguia ler mas que agora,naquela noite,havia convidado-a para um encontro ao ar livre na praça da cidadezinha fria do interior.O caderno ciumento ali,bem abaixo,observando atento e possessivo o Buarque atrevido e sedutor que lhe tirava a atenção da moça.
Ela senta,olha ao redor aquele povo cotidiano e metódico do interior que a observa como um estranho no ninho,um doce, meigo, adorável e destoante estranho no ninho que reverencia a todo instante aquela gente humilde.Atenta à todos os movimentos sutís ou abruptos daquele ballet inocente interiorano,como o menino que corre atrás do cachorro ou a mulher que corre atras do marido e bate nele nas costas enquanto o moleque que vai atrás do casal ri curioso e não distancia,quer saber onde vai dar a discussão,Ela cruza as pernas num gesto afável como se acariciasse o banco e pedisse permissão para estar ali.Respira longamente o ar umido da noite perfumado pelas flores no canteiro à suas costas.Perde ali a contemplá-las alguns minutos e sente-lhe o cobertor cair sob a perna e o vento gelado acariciar seus ombros,que ela num gesto casto e envergonhado recobre com a manta quente.
Acaricia o Buarque e põe o caderno enciumado de lado no banco.O rosto rubro de vergonha recente e frio se encobre de um brilho gostoso de expectativa,expectativa do conhecer daquele mundo novo que abrira com as mãos e aquela sensação de poder e controle do mundo e da vida daqueles personas que a manipulará reciprocamente ali adiante,páginas adiante,mas ainda é a primeira que a prende nos olhos.


